A SAGA DO VINIL - Revivendo uma paixão

February 21, 2016

 

Lá pelos idos dos anos 1970, eu era um garotinho de sete, oito anos de idade. E em termos de mídia de som naqueles tempos, o que rolava até então eram os discos de vinil e as fitas cassete.

 

Eu era o mais novo de três irmãos. Logo, o que eu ouvia na vitrolinha portátil que tinha em casa eram os discos dos meus irmãos mais velhos. Ah... Também haviam os discos do meu finado progenitor, os quais, graças a Deus, eram de excelente qualidade; iam desde música clássica até discos de grandes cantores nacionais que despontavam na época, tais quais Caetano Veloso e Gilberto Gil.

 

Meu irmão mais velho tinha um pequeno gravador portátil e frequentemente fazia gravações dos discos emprestados dos amigos. E sempre que ele não estava em casa, eu pegava seu pequeno aparelho e ficava ouvindo suas fitas cassete, sem sequer saber quem eram as bandas que estavam tocando.

 

Enfim, cresci neste mundo da música analógica veiculada primordialmente no formato vinil. E foi lá no finalzinho da década de 1970 que eu comprei meu primeiro disco de vinil... Foi o Sabbath Bloody Sabbath, do Black Sabbath, o qual comprei usado num sebo no centro da cidade. Nesta época, já tínhamos uma aparelhagem de som mais parruda e de boa qualidade.

 

Deste dia em diante, virei um contumaz consumidor de discos de vinil. Infelizmente a grana era curta e eu não conseguia comprar todos os discos que eu queria. Conseguia comprar um disco por mês, no máximo dois quando rolava alguma data comemorativa tal qual o Natal ou o meu aniversário. Desta forma, fazia como a maioria dos amigos... Ia pegando discos emprestados e gravando os mesmos em fitas cassete.

 

Mas o legal mesmo era ter o disco. Poder chegar em casa, depois da escola, e ir direto para a sala da minha casa... Ligar o meu Hi-Fi e revisitar diariamente a minha pequena coleção em busca do som que iria inspirar a minha tarde... Durante meus anos de colégio, esta era a minha rotina diária... E como era gostoso...

 

Porém, com o surgimento do CD, confesso que minha paixão pelos bolachões ficou um tanto quanto abalada. Na década de 1990, seguindo a manada, abandonei definitivamente a compra de discos de vinil, passando a colecionar os pequenos discos em formato digital.

 

Meus discos foram parar em baixo da minha cama e por lá ficaram empoeirando por anos e anos. Meu poderoso Hi-Fi, um receiver da marca Gradiente, modelo STR-1050, acompanhado do toca-discos Garrard 630s, foram todos empoeirar em algum armário na casa dos meus pais.

 

E o tempo foi passando. Chegaram os anos 2000. E com eles a internet, a música em formato MP3, disponível a todos que tivessem à sua disposição uma conexão com a rede mundial. 

 

Entrei de cabeça nesta nova tecnologia. Em poucos meses depois do primeiro download que fiz, acumulei algumas centenas de músicas no HD do meu computador. Os downloads eram demorados; por vezes demorava horas para baixar uma única música. Mas não tinha problema. Ter a chance de possuir a música de graça no computador era o máximo da independência.

 

E quando consegui meu primeiro gravador de CD... Ai declarei independência total. Gravei dezenas e dezenas de discos que faltavam em minha coleção. Eu não apenas gravava os discos; fazia também as capas e os rótulos. Era uma verdadeira produção pirata (que eu chamava de Buccaneers' Records). Logicamente que eu fazia tudo isto para consumo próprio. Nunca comercializei estas produções. O máximo que eu fazia era gravar alguns trabalhos para presentear amigos.

 

Com o advento da banda larga e os "torrents" a farra virou febre. Passei a fazer downloads de discografias completas. Acumulei tanta música que um dia lotei o HD do meu computador. Ai comprei um HD externo e o lotei também.

 

Todavia, passado algum tempo, comecei a me desencantar com tudo aquilo. Tinha tudo o que eu queria a minha disposição, para ouvir a hora que eu bem quisesse. Entretanto, não ouvia, pois sentia que faltava algo. Faltava um encanto. Eu não entendia bem aquele sentimento.

 

Um certo dia qualquer, a cerca de uns seis ou sete anos, fui visitar meus pais e entrei no meu antigo quarto. Fuçando nos meus armários deparei-me com meu velho receiver. Um dos botões faltando, bastante empoeirado... Mas aparentemente estava em estado razoável. Retirei-o do armário e o liguei na tomada. Acionei o "ON" e sua luz verde se acendeu. Meu coração deu uma palpitada e senti algo que há muito tempo eu não sentia. 

 

Fui até minha mãe e indaguei sobre o restante da aparelhagem. Segundo ela, o Garrard 630s virou brinquedo dos meus sobrinhos. Ou seja, virou sucata. As caixas de som se deterioraram e foram descartadas.

 

Enfim, só "quem" sobrou para contar alguma história foi o receiver, o qual deixei aos cuidados de um conhecido que fazia manutenção de aparelhos antigos para uma revisão. 

 

Passados alguns dias o saudoso aparelho retornou do conserto. Liguei as caixas de som do minha aparelhagem de CD e pude conferir novamente o som potente e cristalino que o danado proporcionava. Porém, somente conseguia ouvir o rádio.

 

Foi então que me lembrei dos meus discos de vinil, esquecidos embaixo da cama. Precisava urgentemente de um toca-discos. E foi meu irmão mais velho que me salvou. Ele tinha um aparelho da marca Sony, o qual estava em desuso; em poucos dias, o aparelho já estava conectado ao meu STR-1050; e meus discos de vinil voltaram definitivamente à ativa.

 

 Receiver Gradiente STR-1050 resgatado e toca-discos da marca Sony cedido pelo meu irmão

 

 

Deste dia em diante, toda aquela minha paixão por discos de vinil voltou de forma bastante intensa. Resgatei aquela sensação indescritível que o ritual de ouvir discos de vinil proporciona. Trata-se de uma experiência sensorial completa. Não é algo apenas auditivo. Envolve tato, visão e até olfato.

 

Existem correntes que pregam que o som analógico dos discos de vinil é melhor do que o som digitalizado do CD. Eu, particularmente, sou adepto desta crença. Porém, já li alguns artigos contradizendo esta afirmação. Como não sou tecnicamente apto a defender esta posição em favor do som analógico, a única coisa que posso dizer é que o som que sai do meu aparelho quando ouço meus discos de vinil (a despeito dos eventuais "pipocos" provenientes de pequenos arranhões e do som oriundo do atrito da agulha com o sulco dos discos) é melhor do que o som dos meus compact discs. 

 

Admito que possa tratar-se apenas de uma percepção ligada àquelas sensações múltiplas que eu descrevi mais acima. Ou seja, o fato de poder admirar a arte das capas num tamanho maior, ler descrições técnicas numa profusão muito maior do que nos encartes do CD, poder manusear os discos com mais propriedade, sentir o cheiro do papelão da capa e do próprio vinil. Sem contar, no meu caso, a nostalgia do ritual.

 

Quando paro para admirar minha coleção de discos, acabo me lembrando da compra de cada um deles; ou então, da pessoa que me presenteou. Sem contar que a grande maioria destes discos foi adquirida durante minha adolescência e que muitas das músicas constantes dos discos foram acompanhandas de algum tipo de emoção e de muitas histórias e paixões. 

 

Ouvir discos de vinil é algo que me transporta no tempo. É uma verdadeira viagem sensorial através do tempo.

 

Com tudo isto, voltei a colecionar discos de vinil. Hoje em dia, frequento todo e qualquer lugar que comercialize bolações. Também compro discos pela internet. Já cheguei até a comprar de um cara que vende através do Facebook.

 

Outra forma que encontrei de conseguir discos de vinil é compartilhar minha paixão junto aos amigos e indagar sobre possíveis doações. Muitas pessoas perderam totalmente o interesse por discos e em certa medida acabam querendo livrar-se dos mesmos a qualquer custo, muitas vezes até de graça. Há algum tempo, um amigo meu, sabedor do meu gosto por vinis, me deu cerca de onze ou doze discos dos Rolling Stones que um vizinho dele estava botando na lixeira do condomínio. Eram discos em excelente estado de conservação; alguns pareciam absolutamente novos, sem uso. Eu fiquei, por um lado, embasbacado com a atitude do sujeito; e por outro lado, extremamente agradecido por meu amigo ter se lembrado de mim.

 

Engordando a coleção - Foto de alguns discos adquiridos recentemente num Sebo aqui em São Paulo

 

 

Com relação à minha aparelhagem de som, eu estava feliz em poder ouvir novamente os meus discos; todavia, eu queria ter novamente um toca-discos igual ao antigo Garrard. Queria compor aquele conjunto Gradiente + Garrard que tanto curti durante minha adolescência. E não deu outra... Recentemente, comprei um Garrard 630s usado através do Mercado Livre, de um cara que mora na região de Campinas.

 

Finalmente o conjunto de som que embalou minha juventude: Receiver Gradiente STR-1050 + Garrard 630s

 

 

O aparelho está com um aspecto um pouco combalido devido ao tempo (estamos falando de um equipamento fabricado no final da década de 1970); entretanto, está funcionando perfeitamente, inclusive seu sistema automático (quando você aciona a opção automática, o braço do toca-discos se levanta e vai sozinho até o começo do disco; e quando chega no final da última trilha do disco, ele volta também sozinho para o descanso do braço e se desliga, tudo sem a interferência humana).

 

Falando agora um pouco sobre o atual mercado dos discos de vinil, tudo indica que este "revival" está mostrando um pouco de força e que talvez tenhamos uma nova tendência de mercado que venha a atender a demanda de um público crescente.

 

Tenho lido bastante coisa sobre esta possível nova tendência (principalmente no mercado internacional - Estados Unidos e Europa) e sei de pequenos empresários brasileiros que já estão conseguindo ganhar um bom dinheiro no mercado de discos usados. Há também uma expectativa de crescimento com relação à produção de novos discos de vinil aqui no Brasil.

 

Desde 2008, a Polysom, localizada no Rio de Janeiro, tem fabricado discos de vinil com qualidade bastante boa e vem atendendo à demanda de artistas nacionais que entraram nesta onda de gravar seus trabalhos também no formato vinil. Alguns exemplos de artistas que estão encarando este desafio: O Rappa; Fernanda Takai; Pitty; Capital Inicial; Nação Zumbi; Jorge Ben Jor; Planet Hemp; Cachorro Grande; entre outros. Segundo o que pude apurar, a Polyson tem capacidade para produzir 28 mil bolachões por mês e mais alguns milhares de compactos.

 

Até agora, a Polyson estava sozinha neste mercado aqui no Brasil. Entretanto, um novo projeto promete revolucionar o mercado de discos de vinil no país: a Vinil Brasil.

 

Trata-se de um projeto capitaneado por um músico brasileiro chamado Michel Nath, o qual estava envolvido com o lançamento de um disco (seu projeto autoral chamado Solar Soul) no formato vinil. Em parceria com o importador de discos Clênio Lemos, adquiriu o maquinário da antiga fábrica de discos Continental, os quais estavam abandonados num ferro velho. 

 

Reformaram os equipamentos e estão montando a estrutura fabril na região da Barra Funda, em São Paulo. A previsão é de que a produção dos discos comece ainda no primeiro semestre de 2016. Segundo os empreendedores, a fábrica poderá produzir cerca de 150 mil discos por mês.

 

Prensas reformadas da nova Fábrica de Vinis - Vinil Brasil. Clique na imagem e tenha acesso à reportagem.

 

 

Com tudo isto, outra fatia do mercado que vem crescendo é aquele ligado à venda de aparelhos toca-discos e acessórios (cápsulas e agulhas). As lojas da região da Santa Ifigênica (São Paulo) tem observado um crescente aumento neste segmento, com alguns comerciantes observando aumento de vendas na casa dos 80% (leia matéria sobre este mercado clicando aqui).

 

Enfim, meus caros amigos... Apesar de algo que suscita nostalgia e saudosismo por parte de uma pequena parcela da população, tudo indica que este movimento de volta do vinil é algo que tende a se estabelecer como um mercado de nicho, o qual, sendo bem explorado, pode vir a gerar bons lucros para aqueles que se decidirem em se aventurar pelo mesmo.

 

No meu caso, por enquanto, estou me limitando a ser parte do mercado consumidor. Todavia, quem sabe num futuro próximo decida por encarar um empreendimento no setor. Desejo não me falta!

 

Finalizo esta matéria/depoimento me disponibilizando a manter contato com todos que tenham interesse neste maravilhoso tema. E lembrem-se! Se não quiserem mais seus  discos de vinil, falem comigo!

 

Forte abraço a todos e até a próxima.

 

Betão Star Trips

 

 

 

 

 

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