A SAGA DO VINIL... DE SÃO PAULO À LISBOA... E ALÉM...

March 1, 2020

Muito tempo se passou desde que eu havia resolvido "aposentar" a minha coleção de discos de vinil. Os mais de 200 LPs (somando os meus e os da minha esposa) ficaram anos guardados embaixo da cama.

 

Um dia, há cerca de uns 10 anos, fui visitar minha saudosa Mãe (Dona Genecy). Fui ao meu antigo quarto e, não sei bem por que, comecei a abrir as portas do meu antigo armário. Talvez fosse o meu inconsciente me levando a uma busca de um passado saudoso... o passado da minha juventude.

 

E de repente, bem no fundo de um dos compartimentos do armário, eis que vislumbro o semblante daquele "ser inanimado", todo empoeirado e sem vida, há muito esquecido nas prateleiras do tempo e que não via a luz e nem se alimentava de eletrecidade havia bons pares de anos.

 

Num gesto desenfreado e com algum desespero, puxei-o para fora e lhe fiz um carinho. Inconscientemente, lhe pedi desculpas pelo abandono. E  meu primeiro ato para tentar lhe devolver a vida foi pluga-lo à tomada. E qual não foi a minha surpresa ao ver seu painel de luz verde se ascender novamente. Uma felicidade tomou conta de mim. O segundo ato foi encontrar um pano umedecido para livrar-lhe da poeira.

 

O ser inanimado ao qual me refiro acima é o antigo receiver Gradiente, modelo STR-1050, comprado pelo meu irmão Renato no ano de 1979. O aparelho foi comprado juntamente com um toca-discos da mesma marca; era um Gradiente 630S, modelo Garrard; a Gradiente tinha a concessão da Garrard inglesa para a fabricação destes toca-discos no Brasil. Eram aparelhos de uma qualidade excelente.

 

Após encontrar o receiver, resgata-lo e limpa-lo, fui até minha Mãe e questionei sobre o paradeiro do Garrard. Que tristeza ouvi-la falando que o toca-discos virou brincadeira dos meus sobrinhos (filhos do meu irmão Renato); chegou a fazer parte de uma nave espacial, segundo ela. E no final, destroçado, foi parar no lixo.

 

Pelo menos o bom e velho receiver havia sobrevivido. E num ato incontido, trouxe o aparelho comigo. A partir daquele momento, decidi que iria resgatar o tempo perdido.

 

 

O INÍCIO DA SAGA

 

Ao chegar em casa com aquele "trambolho" recebi um certo olhar de recriminação por parte da minha amada esposa (salve, salve). Perguntou-me ela onde eu iria colocar o aparelho? Imediatamente arrumei um lugar de destaque no rack da sala. Por certo que ela não gostou da minha solução. Todavia, como todo bom menino, disse que isso seria por pouco tempo. Não sei ao certo se ela acreditou. Mas de fato, o aparelho por lá ficou.

 

O próximo passo no desenrolar desta saga foi encontrar alguém que pudesse fazer uma revisão técnica do aparelho. Lembrei do cara onde já havíamos levado alguns eletrodomésticos para manutenção. E para minha sorte, o sujeito topou dar uma olhada no tamanho da encrenca.

 

Passadas umas duas semanas, ele me ligou informando que o aparelho estava bom. Fez uma boa limpeza (interna e externa), trocou alguns pequenos componentes; enfim, resgatou a dignidade daquela preciosidade. Considerando o valor sentimental intrínseco, o que ele me cobrou pelo serviço foi uma ninharia; não me lembro do valor cobrado, mas sei que fiquei bem feliz quando ele me disse o preço do serviço.

 

A próxima etapa era incerta, pois eu precisava de um toca-discos. Onde conseguir um? Fiz algumas pesquisas na internet e não gostei do que encontrei. Havia ofertas de aparelhos iguais ao Garrard, mas os patamares de preços não eram nada convidativos.

 

Lembrei então que meu irmão Renato tinha uma aparelhagem Sony e que o toca-discos não estava sendo usado. Liguei para ele e contei sobre o resgate do antigo aparelho de nossa juventude. Não foi nada difícil convencer meu irmão a me dar o toca-discos.

 

Entretanto, um novo desafio apareceu. A alimentação do aparelho era de apenas 12 volts; o mesmo não tinha um transformador de voltagem; havia apenas um cabo de força com um pequeno conector na ponta, o qual era ligado à aparelhagem mãe, onde lá sim se encontrava o famigerado transformador.

 

Rei da gambiarra que sou, lembrei que tinha guardado um transformador de voltagem de 220/110 para 12 volts, o qual usei por ocasião da utilização do meu antigo toca-fitas Roadstar como um aparelho doméstico (esta foi a gambiarra original). Fiz uma adaptação nos cabos (nem vou contar como, para não alongar demais) e, gambiarra pronta, conectei o toca-discos ao receiver e fui aos testes.

 

Retirei os discos de vinil debaixo da cama. A emoção era forte. Pelo o que consigo me lembrar, o disco escolhido para o teste inicial foi o Back In Black do AC/DC. Se não foi o primeiro, certamente foi o segundo. O que sei concretamente é que a sensação de voltar a ouvir meus discos de vinil através do "meu" antigo e poderoso Hi-Fi foi algo de muito mágico.

 

Aquilo tudo era como uma máquina do tempo; cada disco tinha uma história por trás e eu me transportei no tempo, de volta às lojas, de volta à casa dos amigos, de volta às festas embaladas pelos discos, de volta aos dias em que eu chegava da escola e ia direto para a sala de casa e deixava minha Mãe louca ao ouvir no talo o som das bandas de rock e heavy metal da minha coleção.

 

Enfim, o tempo foi passando e eu retomei a minha coleção de discos de vinil. A grande maioria das novas aquisições eram de discos usados, comprados em sebos ou mesmo recebidos como doações de amigos que já não tinham interesse em permanecer com os mesmos.

 

 

A RESSURREIÇÃO

 

Foi então que um dia eu consegui comprar uma velha e combalida vitrola Gradiente Garrard 630S de um cara que era da cidade de Campinas, no interior de São Paulo. Comprei o aparelho via Mercado Livre; o preço era uma bagatela e ainda consegui dividir em 10 vezes no cartão.

 

Apesar de funcionar, o equipamento estava caindo aos pedaços. O gabinete de madeira que acomodava a estrutura mecânica, que era feito de uma espécie de aglomeração de serragem (revestida com uma fina lâmina de madeira), estava esfarelando; e para conter a deterioração, me utilizei dos meus vastos conhecimentos em técnicas de gambiarras; apliquei fitas adesivas, envolvendo a estrutura com várias camadas de forma que a mesma voltasse a ter firmeza. Apesar de não ter ficado muito bonito, ficou funcional. Era o que me interessava para o momento.

 

Por tudo isso, continuei a minha busca por um aparelho em melhores condições, sempre pensando em encontrar algo que não fosse tão caro. Haviam anúncios bastante variados em diversos sites, todavia, os aparelhos em melhores condições sempre eram vendidos por valores bastante elevados.

 

Mas a sorte estava do meu lado e, por intermédio do meu amigo Helinho, chegou até mim uma vitrola da mesma marca, ou seja, uma Gradiente Garrard, de modelo 95S; o equipamento era igual ao modelo 630S; era um modelo de fabricação mais nova, sendo que a empresa só mudou o nome. O motor estava travado e nada funcionava. Entretanto, o aparelho estava bonito e muito melhor conservado em termos estéticos e de aparência. Acabou que o Helinho me deu o aparelho. E o que foi que fiz?

 

Eu havia arranjado um lugar em Santo Amaro, uma assistência técnica que pertencia a um cara que adorava mexer com estas velharias. Levei as duas vitrolas e pedi que ele usasse o melhor das duas e as transformasse numa só. O resultado foi maravilhoso; as partes externas de uma com os mecanismos da outra; ficou lindona e muito funcional.

 

Foi então que, finalmente, resgatei a minha aparelhagem de som original; aquela que embalou a minha adolescência.

 

De lá para cá, comprei e ganhei mais um monte de discos. Hoje são mais 330 discos e quero chegar pelo menos aos 1000 discos.

 

 

A PARTE FINAL DA HISTÓRIA... ATÉ AGORA...

 

Desde janeiro de 2019 estou morando em Lisboa. Vim para cá por conta de uma excelente oportunidade profissional; entretanto, o processo de migração por vezes é duro e rola muita saudade dos familiares e amigos, bem como das coisas do dia-a-dia que muitas vezes nem damos o devido valor. E para aplacar um pouco esta saudade, resolvi trazer para cá, tanto a minha aparelhagem, quanto os meus discos de vinil.

 

Entretanto, por uma questão técnica relativa à frequência da rede elétrica de Portugal (aqui a rede funciona em 50 Hertz, enquanto que a rede brasileira funciona em 60 Hertz) minha Gradiente Garrard 630S Frankenstein não funciona direito; esta pequena diferença de frequência faz com que o motor gire mais lento e o resultado é que a música fica também mais lenta.

 

Tentei de tudo para fazer com que meu toca-discos viesse a funcionar adequadamente (juro que tentei). Mas, no final das contas tive que comprar um toca-discos novo. Não que isso seja ruim, na medida em que comprei um excelente equipamento. Todavia, meu mais profundo desejo era usar a minha aparelhagem original, a minha máquina do tempo. Mas tudo bem... em algum outro momento minha velha vitrola vai voltar a tocar.

 

 

O QUE ME INSPIROU A CONTAR ESTA HISTÓRIA TODA

 

Finalmente, quero compartilhar a história de um casal de amigos novos que estou fazendo aqui em Lisboa, o Antonio Andrade (Tó) e sua esposa Fátima Andrade (Ticha); eles, tal qual a mim, são apaixonados por música e por discos de vinil; e eles têm também uma verdadeira máquina do tempo, a loja de discos TNT, a qual fica perto de onde moro.

 

Há poucas semanas, passei de ônibus em frente à loja. Estava indo à casa de um amigo e quando voltei não resisti em descer do ônibus e entrar naquela pequena maravilha; entrei, me encantei, virei fã e cliente. Conversei um pouco com a Fátima, fiz muitas perguntas e namorei uma pancada de discos. Num dado momento, ela chamou o Antonio para me ajudar a localizar um disco. E que figura é o Antonio! Impossível não querer se tornar amigo dele. No final das contas, saí de lá com mais um disco para minha coleção. Tenho certeza de que este foi o primeiro de muitos discos que comprarei lá.

 

Tenho mantido contato com o Antonio Andrade via Facebook e ele teve a consideração de me encaminhar um link de uma linda reportagem feita em homenagem a ele, sua esposa e o seu empreendimento. 

 

Esta linda matéria, muito bem escrita e muito cativante, conta um pouco da história deste casal e suas paixões. Trata-se de um texto muito inspirador.

 

E foi por isso que resolvi contar a história da minha "saga do vinil". 

 

Espero inspirar alguém também.

 

Por fim, compartilho o link abaixo e faço votos que vocês, assim como eu, também venham a se encantar com a história do Tó e da Ticha.

 

Forte abraço e até a próxima... Betão Star Trips...

 

https://ocio.dn.pt/artes/tnt-a-loja-de-campolide-que-liga-geracoes-pelo-vinil/24979/?fbclid=IwAR3KZ_NNrzfQjp4dDX_AgR7G7Clx15xk5CXyOlbyunNBSI4jlclAnjAuLnQ

 

 

 

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